Sonhos e desejos (...)
Dear God the only thing I ask of you is
ato hold her when I'm not around
when I'm much too far away....
Maynara, 14 primaveras. Joinville, Santa Catarina. Namorando com o meu príncipe, Phelipe Ayrton Carlim.Ao longo da minha vida tive milhões de momentos felizes e pessoas vieram e foram, deixando no meu coração uma marca que ninguém apagará. Já outras pessoas que pensei não serem importantes, essas sim estão comigo pro que der e vier e eu as amo por isso. Não importa a minha pouca idade, eu já aprendi muito, assim como eu já errei muito e o mais importante foi ter aprendido com esses erros. Eu me descobri em um fim de semana um alguém que eu nunca imaginei ser, me transformei percebendo que meus problemas não são únicos e muito menos os piores. Descobri que o egoísmo não serve para nada, além de nos ferir. Percebi que dar um pouco de atenção ao próximo é muito importante, entendi que as pessoas são carentes de atenção. Aprendi ler o coração das pessoas que estão a minha volta e a ouvir mais. Percebi que ninguém é culpado pelo meu sofrimento além de mim mesma, pois a dor é inevitável, mas o o sofrimento é opcional. Aprendi a perdoar, porque reclamar, não vai mudar o fato, pelo contrário, só fará você sofrer mais e mais. Superar as dificuldades. Isso é o legal de viver. E sorrir, sorrir sempre mesmo sem ter motivos, pois um sorriso pode curar almas. E Deus curou a minha vida.

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Talk to me
f.a.q, leia.

theme por umapequenapoeta; alguns detalhes por desperancoso, nostalgia-surreal e sabedorias.

me sigam no meu outro tumblr em breve esse será desativado.~clica~ 




Anonymous asked: "na boa teu tumblr é muito perito mano e você escreve muito , não exclui teu tumblr por favor!"

perito ? olha eu tenho dois tumblr eu nem entro nesse.




Anonymous asked: "Qual era o nome do seu antigo tumblr?"

olha era my world magical depois gifs-imagens ai desisti disso e tal,





Com passos largos e pisadas contrariadas, se dirigia a local do encontro. Nada foi planejado como deveria ter sido, de fato, aquela casualidade havia nascido de uma calorosa discussão de dois apaixonados, porém teimosos. (…) Chegando àquele bar escuro e sujo, que passava desapercebido entre as construções sofisticadas, chegou a pensar que ele queria que fosse uma eventualidade secreta. Pois fez questão de fazer hora em frente a porta do botequim, esperando que ele chegasse, assim deixando todos verem onde e com quem ela estava.
- Ooooooooooi meu bem! - Sorria, deleitada em sarcasmo, abarançando seu amado que acabara de chegar, fazendo o maior alarde possível - 
- É, oi, vamos entrar logo, vamos… 
Era um homem de se dar inveja, talvez sendo um dos motivos para que ela fizesse tanta questão de demonstrar afeto em público. Sua barba por fazer e seus cabelos igualmente negros, o deixavam extremamente másculo. Seus olhos cor-de-mel bastante expressivos por debaixo de delineadas, porém grossas sobrancelhas, poderiam hipnotizar quem os fitasse por mais de 3 segundos. Suas vestes, por mais grossas que fossem por conta do frio exarcebado que fazia aquele dia, deixavam transparecer seu corpo bem definido. 
- Por que tanta pressa, meu chuchuzinho?! - Ela disse, entre gargalhadas forçadas porém gostosas, sendo arrastada pelo galã de olhos sedutores. - 
Sentaram-se em uma mesa em um canto bastante discreto, que parecia estar especialmente reservada. Dali se podia observar toda a movimentação do local, além de ficar bem ao lado da saída dos fundos. 
- E aí, está sendo procurado pela polícia? Ou será que eu que estou? Não sou criminosa, meu bem, não precisa se sentar tão perto assim da porta, pra que fugir?! - Inclinava a cabeça para o lado e sorria, meiga - 
- Pra quê tantas perguntas, linda?
- Ora, elas ainda nem começaram… Até agora não me informaram qual o motivo desse encontro.
- Não quer beber nada, comer, eu pago…
- Se eu encostar minha boca nesses copos, devo pegar doenças que ainda nem fora catalogadas! E olha que eu nunca fui de frescura!
- Tem razão - Olhou, com asco, um copo meio amarronzado e empoeirado em que um homem bebia - então vamos direto ao ponto…
- Silêncio - 
- Essa porta está aqui caso queira se retirar, bem no meio de meu relato. Sabemos como és, impaciente que só, provavelmente nem irá querer me ouvir.
- E não seria melhor me deixar longe de qualquer ponto de fuga?
- Pois quero que cada segundo de sua presença a partir de agora, seja de livre e espontânea vontade.
- Que assim seja. - apoiou o rosto em uma das mãos, fazendo sinal para que ele desembuchasse de vez - 
- Hoje acordei assustado, babando sobre vários papéis, debruçado na mesinha de centro da sala de estar. Mais especificamente, fotos, cartas, bilhetes de despedidas… As lágrimas secaram no meio rosto, que se eu fosse uma garota, estaria todo pintado de preto. Mal me movi: peguei uma carta, uma carta em especial. Tinha seu perfume, depois de tanto tempo, ele nunca saiu. Eu li e reli, tentando achar algum verso amargo, uma palavra de desgosto. Mas até tuas grosserias escritas ali, faziam palpitar meu coração. As lágrimas voltaram assim que me dei conta de que aquilo era passado. Me dei conta, no entanto, de que você se tornava passando tantas vezes, e vice-versa, mas sempre voltava ao meu presente. 
- E se você acha…
- Eu não estou aqui para mudar isso, se é o que acha. Vim aqui para dar continuidade nessa nossa instabilidade gostosa e excitante. Aquela porta ali também serve de refúgio, se aceitar encontrar um novo lugar para nós dois, provisório como tudo entre a gente e…
Ela se levantou rapidamente, abriu a porta e fez um sinal para que ele a acompanhasse.
- Sabia, bom, te entendo, adeus…
- Pois venha rápido, o que está esperando? Se eu pensar duas vezes não vou aceitar essa tua loucura. Mas não me dê a mão, tua mão sua sempre que se encontra com a minha. 
- É apenas uma maneira diferente de eu te dizer que quer te dar meu calor…
- Quando você ficou tão piegas, meu bem? - disse, dando o braço para o cavalheiro dos olhos de mel. - Vitória D. (amores-cruzados)

Com passos largos e pisadas contrariadas, se dirigia a local do encontro. Nada foi planejado como deveria ter sido, de fato, aquela casualidade havia nascido de uma calorosa discussão de dois apaixonados, porém teimosos. (…) Chegando àquele bar escuro e sujo, que passava desapercebido entre as construções sofisticadas, chegou a pensar que ele queria que fosse uma eventualidade secreta. Pois fez questão de fazer hora em frente a porta do botequim, esperando que ele chegasse, assim deixando todos verem onde e com quem ela estava.

- Ooooooooooi meu bem! - Sorria, deleitada em sarcasmo, abarançando seu amado que acabara de chegar, fazendo o maior alarde possível - 

- É, oi, vamos entrar logo, vamos… 

Era um homem de se dar inveja, talvez sendo um dos motivos para que ela fizesse tanta questão de demonstrar afeto em público. Sua barba por fazer e seus cabelos igualmente negros, o deixavam extremamente másculo. Seus olhos cor-de-mel bastante expressivos por debaixo de delineadas, porém grossas sobrancelhas, poderiam hipnotizar quem os fitasse por mais de 3 segundos. Suas vestes, por mais grossas que fossem por conta do frio exarcebado que fazia aquele dia, deixavam transparecer seu corpo bem definido. 

- Por que tanta pressa, meu chuchuzinho?! - Ela disse, entre gargalhadas forçadas porém gostosas, sendo arrastada pelo galã de olhos sedutores.

Sentaram-se em uma mesa em um canto bastante discreto, que parecia estar especialmente reservada. Dali se podia observar toda a movimentação do local, além de ficar bem ao lado da saída dos fundos. 

- E aí, está sendo procurado pela polícia? Ou será que eu que estou? Não sou criminosa, meu bem, não precisa se sentar tão perto assim da porta, pra que fugir?! - Inclinava a cabeça para o lado e sorria, meiga - 

- Pra quê tantas perguntas, linda?

- Ora, elas ainda nem começaram… Até agora não me informaram qual o motivo desse encontro.

- Não quer beber nada, comer, eu pago…

- Se eu encostar minha boca nesses copos, devo pegar doenças que ainda nem fora catalogadas! E olha que eu nunca fui de frescura!

- Tem razão - Olhou, com asco, um copo meio amarronzado e empoeirado em que um homem bebia - então vamos direto ao ponto…

- Silêncio - 

- Essa porta está aqui caso queira se retirar, bem no meio de meu relato. Sabemos como és, impaciente que só, provavelmente nem irá querer me ouvir.

- E não seria melhor me deixar longe de qualquer ponto de fuga?

- Pois quero que cada segundo de sua presença a partir de agora, seja de livre e espontânea vontade.

- Que assim seja. - apoiou o rosto em uma das mãos, fazendo sinal para que ele desembuchasse de vez - 

- Hoje acordei assustado, babando sobre vários papéis, debruçado na mesinha de centro da sala de estar. Mais especificamente, fotos, cartas, bilhetes de despedidas… As lágrimas secaram no meio rosto, que se eu fosse uma garota, estaria todo pintado de preto. Mal me movi: peguei uma carta, uma carta em especial. Tinha seu perfume, depois de tanto tempo, ele nunca saiu. Eu li e reli, tentando achar algum verso amargo, uma palavra de desgosto. Mas até tuas grosserias escritas ali, faziam palpitar meu coração. As lágrimas voltaram assim que me dei conta de que aquilo era passado. Me dei conta, no entanto, de que você se tornava passando tantas vezes, e vice-versa, mas sempre voltava ao meu presente. 

- E se você acha…

- Eu não estou aqui para mudar isso, se é o que acha. Vim aqui para dar continuidade nessa nossa instabilidade gostosa e excitante. Aquela porta ali também serve de refúgio, se aceitar encontrar um novo lugar para nós dois, provisório como tudo entre a gente e…

Ela se levantou rapidamente, abriu a porta e fez um sinal para que ele a acompanhasse.

- Sabia, bom, te entendo, adeus…

- Pois venha rápido, o que está esperando? Se eu pensar duas vezes não vou aceitar essa tua loucura. Mas não me dê a mão, tua mão sua sempre que se encontra com a minha. 

- É apenas uma maneira diferente de eu te dizer que quer te dar meu calor…

- Quando você ficou tão piegas, meu bem? - disse, dando o braço para o cavalheiro dos olhos de mel. - Vitória D. (amores-cruzados)



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originally artitud via artitud



A vida e outras incertezas.     
    Naquela tarde, eu bebericava meu habitual café com leite e meu misto quente, enquanto lia um conto de fantasia sobre bruxos e duendes, ou uma crônica sobre algum homem de meia ideia, descrente e tedioso. Histórias como o último me causavam um sentimento ruim, como se minha vida fosse demasiada morna e como se não houvesse sentido algum em meu coração continuar pulsando. Resolvi largar mão do livro e pular fora daquele universo nostálgico, deixar o ar fúnebre junto das migalhas do meu pão, e ir tomar o ar puro e o sol quente das 4h30. 
    Lá fora haviam muitos jovens da minha idade, e apesar de eu me sentir tão distinta, me disfarcei e de camaleoa e caminhei entre eles, casais, amigos e alguns sozinhos, indo para algum lugar, como se eles não pudessem me ver, fitando-os rapidamente. Alguns sorriam, outros soltavam assovios e cantadas infames; uns poucos não gostavam nada da invasão de privacidade que um olhar representa, e murmuravam algumas palavras grosseiras que eu não podia entender. Melhor assim. Logo mais à frente, depois de uma breve conversa com uma conhecida de escola que eu encontrei, vi uma procissão de idosos andando muito unidos e lentamente, vestindo trajes a rigor, conversando cabisbaixos. Achei um fato bastante peculiar, afinal, não é de praxe encontrar idosos, quanto mais uma dúzia deles, nessa hora da tarde; eles costumavam sentir nos bancos antes do meio-dia, lendo o jornal diário e aproveitando a calmaria, o vento fresco e o sol fraco. Me mordendo de minha curiosidade costumeira, de menina que não aguenta imaginar as coisas tendo a chance de desvendá-las, apertei o passo e me aproximei do grupo. Havia um casal andando um pouco afastado do grupo, e pude reparar, embora o semblante triste e os olhos marejados, pareciam tranquilos, armados de bengalas marrom-escuras. Receosa, me aproximei deles esboçando um sorriso, pronta para sair em retirada caso não retribuído.
- Olá, minha jovem! - disse a senhora. Achei engraçado ela já conversar comigo assim, de prontidão, mas confesso ter tido um alívio imediato por não ter sido expulsa dali a base de bengaladas. 
- Ér, oi! É que eu, bem… - ”Ah, achei estranho um bando de velhos que não estejam vendo Vale a Pena Ver De Novo andando pela praça, então vim perguntar se vocês não deviam estar cozinhando biscoitos ou podando uma laranjeira!”, pensei, e ri, olhando para os sapatos. 
- Aposto que quer saber porque estamos aqui, em plenos oitenta anos, andando em conjunto num sol quente desses, estou certo? - disse o senhor, simpático.
- Ah, é que sabe como é, essa hora… Bem, seria indelicado perguntar o que está havendo? Notei as senhoras com um lenço espremido nas mãos, lágrimas…
- Estávamos, quer dizer, estamos indo para um velório de um amigo nosso, sabe, minha jovem. Somos todos do Asilo Santa Helena, vieram dois rapazes nos acompanhar, estão ali à frente. - respondeu a senhora, chorosa. Não demonstravam rejeição, mas as lágrimas escorriam quentes pelos olhos dos dois, quando ela citou a morte do amigo. Fiquei sem jeito. 
- Oh, sim, me desculpe, nossa, eu… Vou lá falar com eles, então, me desculpe, me desculpe mesmo, meus pêsames aos senhores - segurei suas mãos -, com licença. 
E segui rápido de encontro aos tais rapazes. Na verdade inventei que pediria informações para eles, para me livrar de tal situação constrangedora, sabe. Sei que quando estamos tristes, não gostamos de dar muitas satisfações, de luto, menos. 
    Dei apenas um dez passos e já pude vê-los: dois homens altos e de aparência muito jovem. Tinham corpo de nadador, ombros largos e um físico de dar inveja, diga-se de passagem. Um deles tinha os cabelos castanhos e lisos, uma barba por fazer e olhos negros como besouros, que me fitaram por um momento. Aliás, não sei por quanto tempo exatamente fiquei olhando, embasbacada, para os dois deuses, mas com toda a certeza me demorei mais naquele rapaz de camisa branca, olhos verdes e cabelos muito negros, uma pele muito branca e lisa, exalando um cheiro bom que convidava qualquer uma para uma conferida no cangote. Reparei que sorriam para mim, e percebi o quão boba eu deveria estar parecendo, e se meu queixo já tinha alcançado o chão, ou estava quase lá.
- Hm, oi! Desculpem, é que, bem, uns senhores me disseram…
- Eu sou Fernando, ele é Alisson. Muito prazer, você é… - ele falava bem, com um sorriso extremamente branco e cheio de dentes, aqueles olhos verdes brilhando como esmeraldas. 
- Eu sou, bem, sou Victoria. - eu estava vermelha como um tomate fresco, e ele sorriu mais ainda ao ouvir meu nome. Apertei a mão que me estendia, envergonhada.
- Ah, olá, Vic! - não me perguntou se eu gostava do apelido e da intimidade imediata; vai ver estava escrito na minha testa, com a cara de boba que eu fiz. - O que deseja? Veio acompanhando seus avós para o velório de seu Antônio?
- Ah, não… Bem, como eu disse, uns senhores me disseram que você, quer dizer, vocês dois estariam aqui à frente, e bem, fiquei curiosa com essa procissão de senhores assim, amuados, então vim ver o que acontecia por aqui, sem querer incomodar… 
- Ah, sim! Sabe, seu Antônio era muito popular lá no asilo, todos eram seus amigos, morreu de velhice, acredita?! E… - ele hesitou - Olha, desculpe, se tiver de ir…
    Ir embora seria deixar cair duas esmeraldas daquelas, valiosíssimas, caírem no chão, e não voltar pra pegar. Não sei se estava hipnotizada, mas me fingi de interessada naquela história para prosseguir. Parei um pouco pra pensar, em milésimos de segundo, onde seria o tal enterro. Mesmo que fosse longe de casa, eu iria até o Japão atrás daquele sorriso, meu Deus.
- Ah, de forma alguma - saquei o celular para avisar minha mãe que estava andando a cavalo com meu príncipe encantado - me conte sobre esse Sr. Antônio.
- Pois bem, vamos andando então. - ele fez um gesto, virando para trás, avisando para continuarem a caminhada, que a jovem intrometida iria também. Parecia feliz com o fato, mas enfim, deveria ser impressão minha. - Ele morreu ontem pela tarde, a morte testemunhada por aquele último casal que vem atrás de nós. Os três, Antônio, Marilda e Carlinhos, eram muitos amigos, desde a adolescência. As famílias decidiram juntas colocá-los no asilo, sabe.
Andávamos lado a lado, e Alisson conversava com os outros. Agora, eu estava de verdade curiosa.
-… Então, quando foi noticiado à todos o óbito - ele continuou -, houve uma série de desmaios, rostos pasmos, gritos horrorizados. As pessoas usavam Toninho como exemplo, um homem vivido, que nunca viveu sequer um dia igual ao outro, nem mesmo lá no asilo. Promovia atividade diferentes para os amigos, inventava mil jogos com o mesmo baralho de sempre. Teve gente dizendo que não havia mais sentido na vida, afinal, Toninho que parecia imortal, se foi cedo demais, antes de todos eles.
- Mas quem sabe esse Toninho não bebia demais, ou usava drogas pesadas… - eu disse, perplexa.
- Não, não, tinha saúde de ferro, Seu Antônio. Fazia exercícios, e antes de entrar no asilo, caminhava todas as manhãs. 
- Então, mesmo assim, ele morreu de velhice…
- Era o que eu dizia à eles, que sempre comemoravam o aniversário de Toninho, mesmo que ele nunca revelasse a idade. Na verdade tinha apenas 65 anos, quer dizer, e depois de tanto tempo no asilo, apesar da aparência de 50, pensavam que já passava dos 80. 
- Até eu ficaria desiludida, depois dessa. Mas veja só, se me permite dar minha opinião…
- Ora, Vic, - ele me interrompeu -, depois de ficar me ouvindo aqui, andando quilômetros debaixo desse sol quente, suponho que a palavra seja toda sua. - colocou uma das mãos nas minha costas, com um afago, e o sorriso de clareamento tão sincero. Por um momento pensei em mandar uma mensagem para minha mãe e falar que ia casar, que jamais voltaria. Voltei à mim.
- Ah… - eu sorri - Então, suponho que não haja sentido para vida mesmo antes da morte de Toninho, afinal, não vamos todos morrer? E tudo não terá sido em vão? Pensa bem, tento me livrar desse pensamento, mas é inevitável não cair nesse abismo de idéias.
- Não devemos levar a vida como uma passagem, pequena. - aí eu, num salto só, envolvi minhas pernas naquela cintura e tasquei-lhe um beijo. Minto, mas devia. - Se for assim, sentaríamos e esperaríamos as primaveras passarem, até que a morte viesse nos buscar. Aprendi um bocado de coisas vendo tantas histórias nesse asilo, que trabalho faz dois anos, e já vi gente morrer sorrindo, gente morrer enquanto regava as plantas, ou orava. 
- Mas… - ele encerrou minha fala com os dedos sobre meu lábios, e minha vontade é que me calasse de outra maneira. Mesmo assim, me senti arrepiar, assustada e encantada.
- E a morte, pequena, ela vem sem avisar. E quando avisa, talvez seja tarde demais para agir. Desde que comecei a trabalhar naquele asilo, fora do meu período de trabalho, e até nele, me surpreendo. Nunca tive um dia igual ao outro, como seu Toninho. Eu repugnava asilos, e depois deste, quero ser enviado para um no começo da velhice. Quero morrer ao lado de minha mulher, jogando burro ou xadrez. 
- É, bem, acho que depois dessa até eu… 
E aí ele realizou meus devaneios. Num gesto rápido, como se combinado, Fernando entregou sua prancheta para Alisson e mergulhou teu corpo no ar, viajando até o meu, segurando-me firme com suas mãos que mais pareciam fortalezas, e me beijos tão sereno quanto ninguém pensaria que um homem daquelas medidas fosse capaz de fazer. O cheiro dele penetrava minhas narinas, e apesar de rápido, pensei no momento que aquilo seria uma lembrança que eu levaria pro caixão. 
- Está vendo? Tu quebrou a rotina vindo até aqui, com esse teu corpinho pequeno, sorrateiro e curioso, e agora, eu quebrei a minha, dando um beijo numa pequena flor que não almejava virar uma grande roseira. - disse ele, me soltando, pegando de volta a prancheta da mão de Alisson, que sorria como se tivesse ganhado uma cunhada, junto dos idosos que pensavam ter ganhado uma neta.
- Às vezes o destino, brinca com a gente, né, Fernando?! 
Eu fiquei segura, de uma hora pra outra. Segurei sem receio a mão livre de Fernando, e segui com ele até o enterro, e depois numa visita ao asilo, até o anoitecer, dando um tapa na cara da rotina. Comecei uma nova etapa da minha vida, uma etapa de vivência e abandono da existência; fiz meia dúzia de pessoas em luto sorrirem esperançosas, e deixei minha mãe preocupada. Não que seja algo bom, mas eu disse pra minha mãe, que quebrar a rotina é bom. Disse pra ela que do mesmo jeito que meu príncipe do cavalo branco poderia nunca mais ligar, eu poderia nunca mais aborrecê-la. Mas disse também que quando ela estiver bem velhinha, é pro Asilo Santa Helena é que ela vai. E quando eu for bem velhinha também, vou lá me encontrar com Fernando, que de príncipe será rei, e que no auge da velhice, eu vou renascer. Porque o tempo não respeita regra nenhuma, tampouco as do amor. Vitória D. (amores-cruzados)

A vida e outras incertezas.     

    Naquela tarde, eu bebericava meu habitual café com leite e meu misto quente, enquanto lia um conto de fantasia sobre bruxos e duendes, ou uma crônica sobre algum homem de meia ideia, descrente e tedioso. Histórias como o último me causavam um sentimento ruim, como se minha vida fosse demasiada morna e como se não houvesse sentido algum em meu coração continuar pulsando. Resolvi largar mão do livro e pular fora daquele universo nostálgico, deixar o ar fúnebre junto das migalhas do meu pão, e ir tomar o ar puro e o sol quente das 4h30. 

    Lá fora haviam muitos jovens da minha idade, e apesar de eu me sentir tão distinta, me disfarcei e de camaleoa e caminhei entre eles, casais, amigos e alguns sozinhos, indo para algum lugar, como se eles não pudessem me ver, fitando-os rapidamente. Alguns sorriam, outros soltavam assovios e cantadas infames; uns poucos não gostavam nada da invasão de privacidade que um olhar representa, e murmuravam algumas palavras grosseiras que eu não podia entender. Melhor assim. Logo mais à frente, depois de uma breve conversa com uma conhecida de escola que eu encontrei, vi uma procissão de idosos andando muito unidos e lentamente, vestindo trajes a rigor, conversando cabisbaixos. Achei um fato bastante peculiar, afinal, não é de praxe encontrar idosos, quanto mais uma dúzia deles, nessa hora da tarde; eles costumavam sentir nos bancos antes do meio-dia, lendo o jornal diário e aproveitando a calmaria, o vento fresco e o sol fraco. Me mordendo de minha curiosidade costumeira, de menina que não aguenta imaginar as coisas tendo a chance de desvendá-las, apertei o passo e me aproximei do grupo. Havia um casal andando um pouco afastado do grupo, e pude reparar, embora o semblante triste e os olhos marejados, pareciam tranquilos, armados de bengalas marrom-escuras. Receosa, me aproximei deles esboçando um sorriso, pronta para sair em retirada caso não retribuído.

- Olá, minha jovem! - disse a senhora. Achei engraçado ela já conversar comigo assim, de prontidão, mas confesso ter tido um alívio imediato por não ter sido expulsa dali a base de bengaladas. 

- Ér, oi! É que eu, bem… - ”Ah, achei estranho um bando de velhos que não estejam vendo Vale a Pena Ver De Novo andando pela praça, então vim perguntar se vocês não deviam estar cozinhando biscoitos ou podando uma laranjeira!”, pensei, e ri, olhando para os sapatos. 

- Aposto que quer saber porque estamos aqui, em plenos oitenta anos, andando em conjunto num sol quente desses, estou certo? - disse o senhor, simpático.

- Ah, é que sabe como é, essa hora… Bem, seria indelicado perguntar o que está havendo? Notei as senhoras com um lenço espremido nas mãos, lágrimas…

- Estávamos, quer dizer, estamos indo para um velório de um amigo nosso, sabe, minha jovem. Somos todos do Asilo Santa Helena, vieram dois rapazes nos acompanhar, estão ali à frente. - respondeu a senhora, chorosa. Não demonstravam rejeição, mas as lágrimas escorriam quentes pelos olhos dos dois, quando ela citou a morte do amigo. Fiquei sem jeito. 

- Oh, sim, me desculpe, nossa, eu… Vou lá falar com eles, então, me desculpe, me desculpe mesmo, meus pêsames aos senhores - segurei suas mãos -, com licença. 

E segui rápido de encontro aos tais rapazes. Na verdade inventei que pediria informações para eles, para me livrar de tal situação constrangedora, sabe. Sei que quando estamos tristes, não gostamos de dar muitas satisfações, de luto, menos. 

    Dei apenas um dez passos e já pude vê-los: dois homens altos e de aparência muito jovem. Tinham corpo de nadador, ombros largos e um físico de dar inveja, diga-se de passagem. Um deles tinha os cabelos castanhos e lisos, uma barba por fazer e olhos negros como besouros, que me fitaram por um momento. Aliás, não sei por quanto tempo exatamente fiquei olhando, embasbacada, para os dois deuses, mas com toda a certeza me demorei mais naquele rapaz de camisa branca, olhos verdes e cabelos muito negros, uma pele muito branca e lisa, exalando um cheiro bom que convidava qualquer uma para uma conferida no cangote. Reparei que sorriam para mim, e percebi o quão boba eu deveria estar parecendo, e se meu queixo já tinha alcançado o chão, ou estava quase lá.

- Hm, oi! Desculpem, é que, bem, uns senhores me disseram…

- Eu sou Fernando, ele é Alisson. Muito prazer, você é… - ele falava bem, com um sorriso extremamente branco e cheio de dentes, aqueles olhos verdes brilhando como esmeraldas. 

- Eu sou, bem, sou Victoria. - eu estava vermelha como um tomate fresco, e ele sorriu mais ainda ao ouvir meu nome. Apertei a mão que me estendia, envergonhada.

- Ah, olá, Vic! - não me perguntou se eu gostava do apelido e da intimidade imediata; vai ver estava escrito na minha testa, com a cara de boba que eu fiz. - O que deseja? Veio acompanhando seus avós para o velório de seu Antônio?

- Ah, não… Bem, como eu disse, uns senhores me disseram que você, quer dizer, vocês dois estariam aqui à frente, e bem, fiquei curiosa com essa procissão de senhores assim, amuados, então vim ver o que acontecia por aqui, sem querer incomodar… 

- Ah, sim! Sabe, seu Antônio era muito popular lá no asilo, todos eram seus amigos, morreu de velhice, acredita?! E… - ele hesitou - Olha, desculpe, se tiver de ir…

    Ir embora seria deixar cair duas esmeraldas daquelas, valiosíssimas, caírem no chão, e não voltar pra pegar. Não sei se estava hipnotizada, mas me fingi de interessada naquela história para prosseguir. Parei um pouco pra pensar, em milésimos de segundo, onde seria o tal enterro. Mesmo que fosse longe de casa, eu iria até o Japão atrás daquele sorriso, meu Deus.

- Ah, de forma alguma - saquei o celular para avisar minha mãe que estava andando a cavalo com meu príncipe encantado - me conte sobre esse Sr. Antônio.

- Pois bem, vamos andando então. - ele fez um gesto, virando para trás, avisando para continuarem a caminhada, que a jovem intrometida iria também. Parecia feliz com o fato, mas enfim, deveria ser impressão minha. - Ele morreu ontem pela tarde, a morte testemunhada por aquele último casal que vem atrás de nós. Os três, Antônio, Marilda e Carlinhos, eram muitos amigos, desde a adolescência. As famílias decidiram juntas colocá-los no asilo, sabe.

Andávamos lado a lado, e Alisson conversava com os outros. Agora, eu estava de verdade curiosa.

-… Então, quando foi noticiado à todos o óbito - ele continuou -, houve uma série de desmaios, rostos pasmos, gritos horrorizados. As pessoas usavam Toninho como exemplo, um homem vivido, que nunca viveu sequer um dia igual ao outro, nem mesmo lá no asilo. Promovia atividade diferentes para os amigos, inventava mil jogos com o mesmo baralho de sempre. Teve gente dizendo que não havia mais sentido na vida, afinal, Toninho que parecia imortal, se foi cedo demais, antes de todos eles.

- Mas quem sabe esse Toninho não bebia demais, ou usava drogas pesadas… - eu disse, perplexa.

- Não, não, tinha saúde de ferro, Seu Antônio. Fazia exercícios, e antes de entrar no asilo, caminhava todas as manhãs. 

- Então, mesmo assim, ele morreu de velhice…

- Era o que eu dizia à eles, que sempre comemoravam o aniversário de Toninho, mesmo que ele nunca revelasse a idade. Na verdade tinha apenas 65 anos, quer dizer, e depois de tanto tempo no asilo, apesar da aparência de 50, pensavam que já passava dos 80. 

- Até eu ficaria desiludida, depois dessa. Mas veja só, se me permite dar minha opinião…

- Ora, Vic, - ele me interrompeu -, depois de ficar me ouvindo aqui, andando quilômetros debaixo desse sol quente, suponho que a palavra seja toda sua. - colocou uma das mãos nas minha costas, com um afago, e o sorriso de clareamento tão sincero. Por um momento pensei em mandar uma mensagem para minha mãe e falar que ia casar, que jamais voltaria. Voltei à mim.

- Ah… - eu sorri - Então, suponho que não haja sentido para vida mesmo antes da morte de Toninho, afinal, não vamos todos morrer? E tudo não terá sido em vão? Pensa bem, tento me livrar desse pensamento, mas é inevitável não cair nesse abismo de idéias.

- Não devemos levar a vida como uma passagem, pequena. - aí eu, num salto só, envolvi minhas pernas naquela cintura e tasquei-lhe um beijo. Minto, mas devia. - Se for assim, sentaríamos e esperaríamos as primaveras passarem, até que a morte viesse nos buscar. Aprendi um bocado de coisas vendo tantas histórias nesse asilo, que trabalho faz dois anos, e já vi gente morrer sorrindo, gente morrer enquanto regava as plantas, ou orava. 

- Mas… - ele encerrou minha fala com os dedos sobre meu lábios, e minha vontade é que me calasse de outra maneira. Mesmo assim, me senti arrepiar, assustada e encantada.

- E a morte, pequena, ela vem sem avisar. E quando avisa, talvez seja tarde demais para agir. Desde que comecei a trabalhar naquele asilo, fora do meu período de trabalho, e até nele, me surpreendo. Nunca tive um dia igual ao outro, como seu Toninho. Eu repugnava asilos, e depois deste, quero ser enviado para um no começo da velhice. Quero morrer ao lado de minha mulher, jogando burro ou xadrez. 

- É, bem, acho que depois dessa até eu… 

E aí ele realizou meus devaneios. Num gesto rápido, como se combinado, Fernando entregou sua prancheta para Alisson e mergulhou teu corpo no ar, viajando até o meu, segurando-me firme com suas mãos que mais pareciam fortalezas, e me beijos tão sereno quanto ninguém pensaria que um homem daquelas medidas fosse capaz de fazer. O cheiro dele penetrava minhas narinas, e apesar de rápido, pensei no momento que aquilo seria uma lembrança que eu levaria pro caixão. 

- Está vendo? Tu quebrou a rotina vindo até aqui, com esse teu corpinho pequeno, sorrateiro e curioso, e agora, eu quebrei a minha, dando um beijo numa pequena flor que não almejava virar uma grande roseira. - disse ele, me soltando, pegando de volta a prancheta da mão de Alisson, que sorria como se tivesse ganhado uma cunhada, junto dos idosos que pensavam ter ganhado uma neta.

- Às vezes o destino, brinca com a gente, né, Fernando?! 

Eu fiquei segura, de uma hora pra outra. Segurei sem receio a mão livre de Fernando, e segui com ele até o enterro, e depois numa visita ao asilo, até o anoitecer, dando um tapa na cara da rotina. Comecei uma nova etapa da minha vida, uma etapa de vivência e abandono da existência; fiz meia dúzia de pessoas em luto sorrirem esperançosas, e deixei minha mãe preocupada. Não que seja algo bom, mas eu disse pra minha mãe, que quebrar a rotina é bom. Disse pra ela que do mesmo jeito que meu príncipe do cavalo branco poderia nunca mais ligar, eu poderia nunca mais aborrecê-la. Mas disse também que quando ela estiver bem velhinha, é pro Asilo Santa Helena é que ela vai. E quando eu for bem velhinha também, vou lá me encontrar com Fernando, que de príncipe será rei, e que no auge da velhice, eu vou renascer. Porque o tempo não respeita regra nenhuma, tampouco as do amor. Vitória D. (amores-cruzados)



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Iriam completar dois meses que eu estava morando sozinha, em uma casa muito bonita em Belo Horizonte, mas que entrava em grande contraste com a modernidade de uma grande capital como minha cidade. Ficava entre dois arranha-céus realmente enormes, em um bairro muito agradável, por sinal. A rua era tranquila e jovens da minha idade viviam por ali, conversando até tarde da noite, dentro do perímetro de seus condomínios; as pessoas viviam muito presas atrás de tantas grades e cercas, eu achava, e por isso era tão distinta: pela plena segurança do local, o muro de minha casa não era tão alto, e tomado por trepadeiras que deixavam um cheiro de folha gostoso por demais; o portão era de grades brancas, para eu poder ver o movimento da rua e para que as senhoras ”simpáticas” pudessem papear comigo sem querer entrar para tomar um chá: eu nunca gostei de chá, e elas não se dariam por satisfeitas com um refrigerante. Eu tinha também um jardim enorme, com flores de variadas cores, e eu vivia com cheirinho de flor, de pólen, de mel: me ajudava a economizar no perfume, aliás. Havia também um pomar com laranjeira, pé de goiaba, pitangueira, e uma pequena horta. As paredes eram verde-claras como a casa dos meus pais, à pedido de minha mãe, e eu equipei-a com toda a parafernália possível, por minha falta de prática com serviços domésticos e na cozinha. 
Eu não seguia uma rotina, e a única coisa que era feita periodicamente era o cuidado das minhas plantas; uma jovem de 19 anos armada de um regador todos os dias, às 8h30, era de se estranhar, até mesmo para mim, que nunca fui de acordar antes das 10h. As rosas eram minhas preferidas, e havia uma coisa que me atormentava: já que havia uma roseira enorme e multicolorida no meu quintal, ninguém se dava ao trabalho de me oferecer um buquê. Os caras de hoje em dia, talvez, não me dariam nem se eu morasse num arranha-céu, quanto mais num jardim daqueles. Mas sempre fui esperançosa, e do mesmo jeito que sabia que minha mudinha de pé de uva ia vingar, acreditava que ainda ganharia um belo punhado de flores. 
Naquele bairro, apesar de ser bem movimentado, as pessoas pareciam ser sempre as mesmas: exceto por uma tarde de sexta-feira, tal em que eu estava sentada em um das mesinhas brancas que tenho debaixo das minhas árvores, terminando de escrever uma música, e eu vi um rosto desconhecido através das grades do meu portão. Um garoto que aparentava entre vinte e vinte e três anos, cabelos encaracolados como de um anjo, olhos cor de mel e uma barba rala, trajado com roupas de carteiro. Fazia muito tempo que não via Juca, que ouvi dizer que já entregava as correspondências por ali há mais de 15 anos. Fiquei intrigada com um rapaz tão novo e bonito por ali; parecia estar perdido. Com um pouco de receio, resolvi ajudar:
- Ér, oi! Ei… carteiro! Aqui, atrás de você! - fiz um aceno com a mão, meia insegura, tentando parecer o menos nervosa o possível; sei lá porque, alguma coisa me dava a dúvida se deveria mesmo falar com o tal carteiro. 
- Ah, oi, moça! - o belo rapaz parecia aliviado por ter encontrado ajuda. Aliás, o salvei de um atropelamento: vinha um carro bem quando ele saiu do meio da rua para vir até mim. - Vish, essa foi por pouco! - Ele tinha um sotaque delicioso do interior. - Eu sou Miguel, senhorita, muito prazer - estendeu a mão entre o espaço largo entre as barras de ferro. 
- Eu sou Manuela, muito prazer! Então, Miguel… - eu disse, ainda apertando a mão dele. Por que diabos ele não me largava? - Reparei que estava meio perdido, quer dizer, é novo por aqui, não é? O outro…
- Sim, sim, - ele balançava a cabeça afirmativamente várias vezes, de um jeito que me fez morder o lábio, segurando uma gargalhada. Largou minha mão de um impulso. - o Juca, né?! Estou substituindo ele, não conheço muito a cidade grande, sabe, senhorita, e ah, aqui está sua correspondência… É, deixa ver, Manuela do quê?
- Freitas. Freitas Cupertino. Mas o que houve com…
- Ah, aqui está! - me interrompeu - Cê assina aqui, por favor, moça… Vish! Desculpa, nossa senhora, desculpa! - ele havia derrubado metade do conteúdo da bolsa de couro no chão. Meus olhos já lacrimejavam do quão atrapalhado ele era, e eu já não aguentava mais segurar o riso.
- Nossa, calma, tudo bem, eu te ajudo. - Abri o portão e fui até a calçada ajudá-lo com os envelopes. Por um momento nossas mãos se encontraram, e eu percebi como as dele eram frias e machucadas. 
- O que houve com suas… 
- Muito obrigada, senhorita, mesmo! - De um gesto só, ele se levantou, recolheu a bolsa e me entregou as cartas, juntamente com a prancheta para que eu assinasse - Assina aqui, por favor. 
- Pronto, mas…
- Tenha um bom dia, senhorita! - Ele tirou o boné, fez uma leve reverência e se foi. 
Juro que passei o fim de semana inteiro com aquilo na cabeça. Aqueles caracóis nos cabelos, os olhos cor de mel que lembravam minhas flores, as mãos frias e feridas, e todas as perguntas não respondidas, o por que de tanto mistério, e pior: o por que de um carteiro chamado Miguel me pertubar o sono. O que teria acontecido com Seu Juca? Fiquei pensando em todos os fatos, a ligação entre eles, e na minha mania de me meter onde não fui chamada, de minha curiosidade que ia acabar me matando como matou o gato.
Nas duas semanas seguintes, Miguel passava rapidamente pela minha rua, e fazia o maior esforço para não falar comigo; colocava o necessário na caixa de correios, e para sorte dele, não precisei assinar nada. Vai ver ele me achou esquisita e intrometida demais. Vai ver estava simplesmente com pressa, e que era coisa da minha cabeça aquela fuga diária de Miguel. Talvez tudo fosse respondido, ou talvez as coisas piorassem, porque Miguel foi obrigado a bater o interfone e me chamar até o portão: finalmente alguma maldita assinatura de revista, para que eu pudesse chegar mais perto do carteiro misterioso. Tentei parecer o menos afobada, preocupada e curiosa o possível. Acho que não deu certo.
- Ah, oi, Miguel.
- Boa tarde, senhorita, como vai? Assina aqui, por favor, senhorita. - Ele fitava os próprios tênis, estendendo a prancheta para dentro do portão.
- Ah, eu estou bem, e você? - eu respondi, entregando a prancheta. 
- Tenha uma boa tarde, senhorita. 
- Ei, miguel, espera, o quê…
Foi tudo muito rápido: ele levantou o boné e fez uma reverência como de costume; pegou a prancheta e deixou com que uma gota de lágrima molhasse a folha da prancheta que ele segurava com as mãos machucadas. Eu joguei no chão a revista, abri o portão e larguei-o do mesmo modo: fui atrás de Miguel, que correu d emim como uma criança brincando de pega-pega. Eu não pensei em nada, eu só queria saber o que estava havendo com aquele carteiro. Corremos até a rua de trás de minha casa, onde, como eu imaginava, não havia ninguém. Miguel começou a subir o morro mais íngreme que já vi na vida, e quando ia virar a esquina, o alcancei.
- Ei Miguel, MIGUEL! Chega, pára! Escuta! - eu estava ofegante, agarrando-o pela manga da camisa azul. 
- Eu preciso ir, senhorita, eu preciso ir! - ele estava ofegante, vermelho como um pimentão, se debatendo e debulhando em lágrimas. 
- Miguel, pelo amor de Deus, o que tem de errado contigo?! - empurrei-o na parede, e por um momento, olhei bem no fundo do mar de lágrimas que se formava nas pálpebras daqueles olhos enormes. 
Miguel, então, parecendo fora de si, me pegou pelos punhos, e voltamos a correr. Não sei quanto, porque paramos num lugar ainda mais deserto, que custei a reconhecer, pela entrada da periferia que existia bem ao lado do meu bairro. Miguel fez o mesmo que eu e colocou-me contra a parede.
- O que você pensa que está fazendo, Miguel?! ME SOLTA! - Eu gritava, desesperada. O que diabos estava acontecendo?
- O que VOCÊ pensa que está fazendo? O que eu tenho não é da sua conta! Não preciso de sua pena! - As veias de Miguel pareciam querer saltar do pescoço. Eu comecei a chorar de raiva daquela estupidez toda.
- Eu me preocupei com você, só isso! Me solta Miguel, você tá me machucando! - A essa altura estávamos aos gritos, nos debatendo, chorando. Eu o empurrei e agachei, me arrastando pelas costas nas paredes, tentando entender o que estava fazendo meu coração diminuir, quase sumir.
- Eu, eu… - Por um momento senti os braços de Miguel em volta de meu corpo, que rapidamente tratavam de pegar os pertences do carteiro. Ouvi passos, e quando ergui a cabeça, já não estava mais ali. 
Passei os dias seguintes em êxtase. Regava minhas plantas, comia alguma coisa, pegava uma garrafa de vinho e me deitava. Me deitava e desejava ser engolida pelo estofado. Um cara que eu conhecia há um mês, um carteiro com olhos cor-de-mel, que havia gritado comigo, me expulsado de sua vida que eu mal tinha entrado… E eu não conseguia odiá-lo. Sabe-se lá Deus o que eu sentia. Passadas duas semanas do ocorrido, eu não havia corrido os olhos pelo portão nem sequer um dia. Me fechei por completo na minha própria sala de estar, e um suposto Seu Juca bateu o interfone. Suposto por… Pois bem, deixei-o entrar. Deram dois toques na porta - já passara pelo portão, estava sempre aberto. 
- Entra, Seu Juca. - me sentei e dei um nó que mal podia-se chamar de coque no cabelo, e nem sequer fitei o homem que adentrava por ali - Já estava preocupada com o senhor, já que o… o carteiro novo não respondia perguntas, sabe. 
 - Vim respondê-las agora, senhorita. 
Acho que fiz uma pausa no tempo pra procurar meu estômago, que acho que caiu no carpete e rolou para debaixo do sofá. 
- Mi-mi-g.. Miguel… Miguel?
- Boa tarde, senhorita, posso me sentar? - Miguel usava um terno preto, e um chapéu da mesma cor, que tirou e reverenciou com a mesma elegância de sempre. 
- Pode, mas Miguel, olha, eu…
- Juro que deixo me ralhar, bater, e até mesmo me matar se quiser, depois que eu me explicar, sabe. - ainda bem que me interrompeu, eu não sabia mesmo o que falar. Depois de um silêncio constrangedor, dei espaço para que Miguel se sentasse ao meu lado. Ele colocou o chapéu no colo, e esperou até que eu o deixasse falar. ”Não tenho nada a perder”, pensei, então que fale.
- Fala comigo, Miguel, o que foi?! Ah, Miguel, não chore… - parecia uma criança de que tiraram o doce, me deixou sem reação. - Miguel, calma.
- Juca Miguel Moreira Junior.
- Oi?!
- Meu nome é Juca, sim, senhorita, não menti, nunca menti para a senhorita, apenas omiti, olha…
- Como… Peraí…
- Sou filho de Juca. Estava substituindo-o no ofício porque ele estava com problemas no coração, sabe… 
- Ah, quer dizer que está melhor, não é?! - Ele riu, sem graça - Que foi?
- Faz quanto tempo que não sai de casa? - disse ele, olhando em volta.
- Sei lá, 15 dias… 
- Meu Deus, senhorita! Meu pai, que Deus o tenha, deve estar reclamando lá no céu, agora, que a dona Manu não foi se despedir dele…
- Seu pai o quê? Ele… Não! 
Agora parte da história fazia sentido. Me debulhei em lágrimas, afinal, havia me apegado ao Seu Juca em apenas dois meses. Sempre lhe servia um copo d’água, e ele, em troca, um sorriso tão gostoso, tão acolhedor. Seu Juca parecia ter saúde de ferro, e eu nem sonhava que ele teria um filho… Um filho com aqueles mesmo olhos de mel, e o sorriso… Meu Deus.
- Olha, eu não sabia, senhorita, se me permite - ele foi se arredando para o meu lado, e eu me atirei em seus braços, sem modéstia alguma. Ele travou, e em alguns segundos afagava meus cabelos, inseguro. - Meu pai já foi enterrado, tudo bonitinho, sabe. Tem uma faixa lá fora em homenagem à ele, você vai ver quando sair pra tomar um sol. Está pálida e com cheirinho de uva. - ele esbarrou numa garrafa de vinho com os pés - Ah, tá… Bom, me desculpe, me desculpe mesmo por tudo senhorita, é que eu estava passando por momentos difíceis, cuidando do meu pai, das cartas… Ah, eu sei que não justifica, mas espero que entenda, sabe. Sumi uns tempos porque ele precisava de um familiar por lá, mas depois, me disseram que nada poderia ser feito. E…
- Miguel, - eu me soltei de seus braços e o encarei, olhando no fundo daquele mar de mel. Peguei suas mãos. - Ei, Miguel, carteiro misterioso, e quanto a isso? Será que eu posso… 
- Viemos do interior, sabe. - Disse ele, afagando minhas mãos timidamente. Soltei-as. - Eu trabalhava na terra de outros senhores, machucava, sabe, essas cicatrizes não saem, eu acho.
- Mas Seu Juca já está aqui há mais de 15 anos…
- Com 5 eu já trabalhava, sabe…
- Meu Deus, Miguel! 
- Me desculpe, me desculpe por tudo, eu… 
- Quer dizer que agora vai entregar minhas cartas todos os dias, é Miguel? - eu disse, sorrindo ligeiramente.
- É… acho que sim, né. Não sei se é uma boa idéia continuar por aqui, sabe, senhorita… 
- Ei, Miguel. - me aproximei e peguei novamente suas mãos; permaneci tão perdida naquele olhar que mal senti as cicatrizes sob meus dedos, acariciando-o.
- Eu…
 - Fica?
- Tem lugar pra mim? 
(…) Todos os dias Miguel entregava minhas cartas, e mesmo que não houvesse papel para assinar, conversávamos sobre jardinagem, e eu o ensinava os modos da ”capital”. Miguel cogitou cortar os cachos, e eu o proibi; passava as tardes me deleitando naqueles caracóis, e eu nunca descobri o que tínhamos, Miguel e eu. Nunca citamos a palavra amor, porque sabíamos que ele estava ali: percebi quando um dia, Miguel me apareceu com um buquê de flores: não eram rosas, tampouco vermelhas. Eram espatódeas. Ele disse que espatódea, para ele, era a união de todos os aromas, cores e formatos das flores. Miguel continuou me presenteando com espatódeas, e de desconhecida, passou a ser minha preferida. Um dia perguntei o porque delas, e ele disse que eu era como elas, que eu tinha um jardim inteiro no meu sorriso. | Espatódea. Vitória D. (amores-cruzados)

Iriam completar dois meses que eu estava morando sozinha, em uma casa muito bonita em Belo Horizonte, mas que entrava em grande contraste com a modernidade de uma grande capital como minha cidade. Ficava entre dois arranha-céus realmente enormes, em um bairro muito agradável, por sinal. A rua era tranquila e jovens da minha idade viviam por ali, conversando até tarde da noite, dentro do perímetro de seus condomínios; as pessoas viviam muito presas atrás de tantas grades e cercas, eu achava, e por isso era tão distinta: pela plena segurança do local, o muro de minha casa não era tão alto, e tomado por trepadeiras que deixavam um cheiro de folha gostoso por demais; o portão era de grades brancas, para eu poder ver o movimento da rua e para que as senhoras ”simpáticas” pudessem papear comigo sem querer entrar para tomar um chá: eu nunca gostei de chá, e elas não se dariam por satisfeitas com um refrigerante. Eu tinha também um jardim enorme, com flores de variadas cores, e eu vivia com cheirinho de flor, de pólen, de mel: me ajudava a economizar no perfume, aliás. Havia também um pomar com laranjeira, pé de goiaba, pitangueira, e uma pequena horta. As paredes eram verde-claras como a casa dos meus pais, à pedido de minha mãe, e eu equipei-a com toda a parafernália possível, por minha falta de prática com serviços domésticos e na cozinha. 

Eu não seguia uma rotina, e a única coisa que era feita periodicamente era o cuidado das minhas plantas; uma jovem de 19 anos armada de um regador todos os dias, às 8h30, era de se estranhar, até mesmo para mim, que nunca fui de acordar antes das 10h. As rosas eram minhas preferidas, e havia uma coisa que me atormentava: já que havia uma roseira enorme e multicolorida no meu quintal, ninguém se dava ao trabalho de me oferecer um buquê. Os caras de hoje em dia, talvez, não me dariam nem se eu morasse num arranha-céu, quanto mais num jardim daqueles. Mas sempre fui esperançosa, e do mesmo jeito que sabia que minha mudinha de pé de uva ia vingar, acreditava que ainda ganharia um belo punhado de flores. 

Naquele bairro, apesar de ser bem movimentado, as pessoas pareciam ser sempre as mesmas: exceto por uma tarde de sexta-feira, tal em que eu estava sentada em um das mesinhas brancas que tenho debaixo das minhas árvores, terminando de escrever uma música, e eu vi um rosto desconhecido através das grades do meu portão. Um garoto que aparentava entre vinte e vinte e três anos, cabelos encaracolados como de um anjo, olhos cor de mel e uma barba rala, trajado com roupas de carteiro. Fazia muito tempo que não via Juca, que ouvi dizer que já entregava as correspondências por ali há mais de 15 anos. Fiquei intrigada com um rapaz tão novo e bonito por ali; parecia estar perdido. Com um pouco de receio, resolvi ajudar:

- Ér, oi! Ei… carteiro! Aqui, atrás de você! - fiz um aceno com a mão, meia insegura, tentando parecer o menos nervosa o possível; sei lá porque, alguma coisa me dava a dúvida se deveria mesmo falar com o tal carteiro. 

- Ah, oi, moça! - o belo rapaz parecia aliviado por ter encontrado ajuda. Aliás, o salvei de um atropelamento: vinha um carro bem quando ele saiu do meio da rua para vir até mim. - Vish, essa foi por pouco! - Ele tinha um sotaque delicioso do interior. - Eu sou Miguel, senhorita, muito prazer - estendeu a mão entre o espaço largo entre as barras de ferro. 

- Eu sou Manuela, muito prazer! Então, Miguel… - eu disse, ainda apertando a mão dele. Por que diabos ele não me largava? - Reparei que estava meio perdido, quer dizer, é novo por aqui, não é? O outro…

- Sim, sim, - ele balançava a cabeça afirmativamente várias vezes, de um jeito que me fez morder o lábio, segurando uma gargalhada. Largou minha mão de um impulso. - o Juca, né?! Estou substituindo ele, não conheço muito a cidade grande, sabe, senhorita, e ah, aqui está sua correspondência… É, deixa ver, Manuela do quê?

- Freitas. Freitas Cupertino. Mas o que houve com…

- Ah, aqui está! - me interrompeu - Cê assina aqui, por favor, moça… Vish! Desculpa, nossa senhora, desculpa! - ele havia derrubado metade do conteúdo da bolsa de couro no chão. Meus olhos já lacrimejavam do quão atrapalhado ele era, e eu já não aguentava mais segurar o riso.

- Nossa, calma, tudo bem, eu te ajudo. - Abri o portão e fui até a calçada ajudá-lo com os envelopes. Por um momento nossas mãos se encontraram, e eu percebi como as dele eram frias e machucadas. 

- O que houve com suas… 

- Muito obrigada, senhorita, mesmo! - De um gesto só, ele se levantou, recolheu a bolsa e me entregou as cartas, juntamente com a prancheta para que eu assinasse - Assina aqui, por favor. 

- Pronto, mas…

- Tenha um bom dia, senhorita! - Ele tirou o boné, fez uma leve reverência e se foi. 

Juro que passei o fim de semana inteiro com aquilo na cabeça. Aqueles caracóis nos cabelos, os olhos cor de mel que lembravam minhas flores, as mãos frias e feridas, e todas as perguntas não respondidas, o por que de tanto mistério, e pior: o por que de um carteiro chamado Miguel me pertubar o sono. O que teria acontecido com Seu Juca? Fiquei pensando em todos os fatos, a ligação entre eles, e na minha mania de me meter onde não fui chamada, de minha curiosidade que ia acabar me matando como matou o gato.

Nas duas semanas seguintes, Miguel passava rapidamente pela minha rua, e fazia o maior esforço para não falar comigo; colocava o necessário na caixa de correios, e para sorte dele, não precisei assinar nada. Vai ver ele me achou esquisita e intrometida demais. Vai ver estava simplesmente com pressa, e que era coisa da minha cabeça aquela fuga diária de Miguel. Talvez tudo fosse respondido, ou talvez as coisas piorassem, porque Miguel foi obrigado a bater o interfone e me chamar até o portão: finalmente alguma maldita assinatura de revista, para que eu pudesse chegar mais perto do carteiro misterioso. Tentei parecer o menos afobada, preocupada e curiosa o possível. Acho que não deu certo.

- Ah, oi, Miguel.

- Boa tarde, senhorita, como vai? Assina aqui, por favor, senhorita. - Ele fitava os próprios tênis, estendendo a prancheta para dentro do portão.

- Ah, eu estou bem, e você? - eu respondi, entregando a prancheta. 

- Tenha uma boa tarde, senhorita. 

- Ei, miguel, espera, o quê…

Foi tudo muito rápido: ele levantou o boné e fez uma reverência como de costume; pegou a prancheta e deixou com que uma gota de lágrima molhasse a folha da prancheta que ele segurava com as mãos machucadas. Eu joguei no chão a revista, abri o portão e larguei-o do mesmo modo: fui atrás de Miguel, que correu d emim como uma criança brincando de pega-pega. Eu não pensei em nada, eu só queria saber o que estava havendo com aquele carteiro. Corremos até a rua de trás de minha casa, onde, como eu imaginava, não havia ninguém. Miguel começou a subir o morro mais íngreme que já vi na vida, e quando ia virar a esquina, o alcancei.

- Ei Miguel, MIGUEL! Chega, pára! Escuta! - eu estava ofegante, agarrando-o pela manga da camisa azul. 

- Eu preciso ir, senhorita, eu preciso ir! - ele estava ofegante, vermelho como um pimentão, se debatendo e debulhando em lágrimas. 

- Miguel, pelo amor de Deus, o que tem de errado contigo?! - empurrei-o na parede, e por um momento, olhei bem no fundo do mar de lágrimas que se formava nas pálpebras daqueles olhos enormes. 

Miguel, então, parecendo fora de si, me pegou pelos punhos, e voltamos a correr. Não sei quanto, porque paramos num lugar ainda mais deserto, que custei a reconhecer, pela entrada da periferia que existia bem ao lado do meu bairro. Miguel fez o mesmo que eu e colocou-me contra a parede.

- O que você pensa que está fazendo, Miguel?! ME SOLTA! - Eu gritava, desesperada. O que diabos estava acontecendo?

- O que VOCÊ pensa que está fazendo? O que eu tenho não é da sua conta! Não preciso de sua pena! - As veias de Miguel pareciam querer saltar do pescoço. Eu comecei a chorar de raiva daquela estupidez toda.

- Eu me preocupei com você, só isso! Me solta Miguel, você tá me machucando! - A essa altura estávamos aos gritos, nos debatendo, chorando. Eu o empurrei e agachei, me arrastando pelas costas nas paredes, tentando entender o que estava fazendo meu coração diminuir, quase sumir.

- Eu, eu… - Por um momento senti os braços de Miguel em volta de meu corpo, que rapidamente tratavam de pegar os pertences do carteiro. Ouvi passos, e quando ergui a cabeça, já não estava mais ali. 

Passei os dias seguintes em êxtase. Regava minhas plantas, comia alguma coisa, pegava uma garrafa de vinho e me deitava. Me deitava e desejava ser engolida pelo estofado. Um cara que eu conhecia há um mês, um carteiro com olhos cor-de-mel, que havia gritado comigo, me expulsado de sua vida que eu mal tinha entrado… E eu não conseguia odiá-lo. Sabe-se lá Deus o que eu sentia. Passadas duas semanas do ocorrido, eu não havia corrido os olhos pelo portão nem sequer um dia. Me fechei por completo na minha própria sala de estar, e um suposto Seu Juca bateu o interfone. Suposto por… Pois bem, deixei-o entrar. Deram dois toques na porta - já passara pelo portão, estava sempre aberto. 

- Entra, Seu Juca. - me sentei e dei um nó que mal podia-se chamar de coque no cabelo, e nem sequer fitei o homem que adentrava por ali - Já estava preocupada com o senhor, já que o… o carteiro novo não respondia perguntas, sabe. 

 - Vim respondê-las agora, senhorita. 

Acho que fiz uma pausa no tempo pra procurar meu estômago, que acho que caiu no carpete e rolou para debaixo do sofá. 

- Mi-mi-g.. Miguel… Miguel?

- Boa tarde, senhorita, posso me sentar? - Miguel usava um terno preto, e um chapéu da mesma cor, que tirou e reverenciou com a mesma elegância de sempre. 

- Pode, mas Miguel, olha, eu…

- Juro que deixo me ralhar, bater, e até mesmo me matar se quiser, depois que eu me explicar, sabe. - ainda bem que me interrompeu, eu não sabia mesmo o que falar. Depois de um silêncio constrangedor, dei espaço para que Miguel se sentasse ao meu lado. Ele colocou o chapéu no colo, e esperou até que eu o deixasse falar. ”Não tenho nada a perder”, pensei, então que fale.

- Fala comigo, Miguel, o que foi?! Ah, Miguel, não chore… - parecia uma criança de que tiraram o doce, me deixou sem reação. - Miguel, calma.

- Juca Miguel Moreira Junior.

- Oi?!

- Meu nome é Juca, sim, senhorita, não menti, nunca menti para a senhorita, apenas omiti, olha…

- Como… Peraí…

- Sou filho de Juca. Estava substituindo-o no ofício porque ele estava com problemas no coração, sabe… 

- Ah, quer dizer que está melhor, não é?! - Ele riu, sem graça - Que foi?

- Faz quanto tempo que não sai de casa? - disse ele, olhando em volta.

- Sei lá, 15 dias… 

- Meu Deus, senhorita! Meu pai, que Deus o tenha, deve estar reclamando lá no céu, agora, que a dona Manu não foi se despedir dele…

- Seu pai o quê? Ele… Não! 

Agora parte da história fazia sentido. Me debulhei em lágrimas, afinal, havia me apegado ao Seu Juca em apenas dois meses. Sempre lhe servia um copo d’água, e ele, em troca, um sorriso tão gostoso, tão acolhedor. Seu Juca parecia ter saúde de ferro, e eu nem sonhava que ele teria um filho… Um filho com aqueles mesmo olhos de mel, e o sorriso… Meu Deus.

- Olha, eu não sabia, senhorita, se me permite - ele foi se arredando para o meu lado, e eu me atirei em seus braços, sem modéstia alguma. Ele travou, e em alguns segundos afagava meus cabelos, inseguro. - Meu pai já foi enterrado, tudo bonitinho, sabe. Tem uma faixa lá fora em homenagem à ele, você vai ver quando sair pra tomar um sol. Está pálida e com cheirinho de uva. - ele esbarrou numa garrafa de vinho com os pés - Ah, tá… Bom, me desculpe, me desculpe mesmo por tudo senhorita, é que eu estava passando por momentos difíceis, cuidando do meu pai, das cartas… Ah, eu sei que não justifica, mas espero que entenda, sabe. Sumi uns tempos porque ele precisava de um familiar por lá, mas depois, me disseram que nada poderia ser feito. E…

- Miguel, - eu me soltei de seus braços e o encarei, olhando no fundo daquele mar de mel. Peguei suas mãos. - Ei, Miguel, carteiro misterioso, e quanto a isso? Será que eu posso… 

- Viemos do interior, sabe. - Disse ele, afagando minhas mãos timidamente. Soltei-as. - Eu trabalhava na terra de outros senhores, machucava, sabe, essas cicatrizes não saem, eu acho.

- Mas Seu Juca já está aqui há mais de 15 anos…

- Com 5 eu já trabalhava, sabe…

- Meu Deus, Miguel! 

- Me desculpe, me desculpe por tudo, eu… 

- Quer dizer que agora vai entregar minhas cartas todos os dias, é Miguel? - eu disse, sorrindo ligeiramente.

- É… acho que sim, né. Não sei se é uma boa idéia continuar por aqui, sabe, senhorita… 

- Ei, Miguel. - me aproximei e peguei novamente suas mãos; permaneci tão perdida naquele olhar que mal senti as cicatrizes sob meus dedos, acariciando-o.

- Eu…

 - Fica?

- Tem lugar pra mim? 

(…) Todos os dias Miguel entregava minhas cartas, e mesmo que não houvesse papel para assinar, conversávamos sobre jardinagem, e eu o ensinava os modos da ”capital”. Miguel cogitou cortar os cachos, e eu o proibi; passava as tardes me deleitando naqueles caracóis, e eu nunca descobri o que tínhamos, Miguel e eu. Nunca citamos a palavra amor, porque sabíamos que ele estava ali: percebi quando um dia, Miguel me apareceu com um buquê de flores: não eram rosas, tampouco vermelhas. Eram espatódeas. Ele disse que espatódea, para ele, era a união de todos os aromas, cores e formatos das flores. Miguel continuou me presenteando com espatódeas, e de desconhecida, passou a ser minha preferida. Um dia perguntei o porque delas, e ele disse que eu era como elas, que eu tinha um jardim inteiro no meu sorriso. | Espatódea. Vitória D. (amores-cruzados)



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Sigam ela, vale apena, sério. Uma tremenda escritora. 





Uma estante abarrotada de histórias, e no interior de cada uma delas, pequenos fragmentos, imagens e trechos, de um passado tão recente que nunca passa. - O que é o passado, senão, quando inserido num corpo anteriormente amado, algo que se foge do controle das mãos e do pensamento? E quando amamos, talvez, não exista passado que nos deixe de revirar as entranhas. Talvez essa história de nostalgia signifique algo verdadeiramente eterno. - Eu passava os dedos entre as margens das páginas amareladas e firmes, com um prazer tão grande quanto minha saudade. Não entrava muita luz no recinto, e ao cair do crepúsculo meu único desejo era morrer de tristeza, escondida entre as memórias de altas estantes e extensas prateleiras. Talvez porque aquele céu rosa-alaranjado fosse bonito demais para ser admirado por alguém solitário. Ele veio sorrateiro e incovenientemente casual, então, enquanto eu tratava com meus botões do meu lento e natural renascimento das cinzas.
— Está escrito em seus olhos.
Um sorriso maroto que puxava uma cadeira acolchoada a cor de vinho, para acomodar-se à o que me parecia uma longa e tortuosa prosa. Nada naquele sorriso me inspirava prazer. O medo da tentação me arrepiava os pêlos da nuca.
— Seja lá o que for, sempre esteve. Dê a deixa de teu falar com algo menos óbvio.
— E quem foi que te ensinou à cuspir fogo pelas ventas? São esses livros? T e enfiei na fantasia dessa biblioteca escura, e tu me cria uma dentro de tua alma.
Pretensioso. Me olhava num tom de desafio que me trincava os ossos.
— Tu não sabes de mim, guri. Não mais.
— Ah, mineira, menina… minha. Shhhh…. Antes que me atire pedras. Como andas? Com as pernas, pois bem. E o coração? A gente fechava os olhos e dava as mãos, lá pras quatro e meia. E esperava passar. Acho que tu contava os calos dos meus dedos e apertava bem as pálpebras, só pra não ver nem sentir o sol caindo. E eu nem ligava…
À essa altura já caminhava entre os móveis como um gato, presunçoso, metido.
— Tu nem ligava. Nunca.
— Mas… Tá chovendo?
Parou num baque, apoiado nos calcanhares, como se prendesse a respiração àquela resposta.
— Daquelas garoinhas chatas, só. Depois de um tempo vira parte do contexto.
— E quem foi que abriu o guarda-chuva?
Teu semblante brilhava em cólera, explodia nervosismo daqueles olhos tão pretos. Às vezes a gente deve deixar de lágrimas. Elas voltam por nossa garganta feito uma cachoeira de tristeza. A garoa. Há de passar? Vomitei as palavras. E quem limpasse o assoalho que tratasse de carregá-las.
— Às vezes ele é tão bom, que dá medo de amar. Porque quando eu amo, aperto tanto contra meu peito (pra ver se entra) que quebra. Sangra por dentro e destruo por fora. E ele fica tão bonito livre. Ele combina com terças-feiras de Sol, sabe? É como se tivesse nascido para ser minha fênix, e à cada vez que eu me tornasse cinzas da minha própria ansiedade e angústia, ele me renascesse. É intrigante, mesmo que seja a verdade em pessoa. É que às vezes ele me cuida e foge como se fosse anjo da guarda de meio mundo. Eu vivo ainda nessa mania de ser excepcional, mágica, fada, encantadora. Então ele me abraça sem nem ver, e tenho medo que ele corra. Corra para nunca mais me chamar de ”meu bem”. Tô me contentando sem falar de amor. Porque a saudade faz dele ainda mais bonito em meus sonhos. Porque a gente se fala pequeno, apertado, e eu sei que ele pode expandir do tamanho do universo. A aura dele é azul, e talvez eu não esteja preparada para viver sem isso novamente. Às vezes ele parece a bossa nova que eu semre procurei. Mas talvez ele me venha com um solo de guitarra, sem rosa nem espatódea. Ele me encanta, ele me envolve, sabia? Ele é a coisa mais bonita do mundo. Mas sai dessa. Não é pra mim, quem dera. Eu deixo ele quietinho, olho de longe, se não eu estrago, quebro, desmonto. Às vezes (guarda esse segredo?), quando ele dorme, eu toco o rosto dele bem leve, com as costas das mãos. E enquanto ele pensa que foi um sonho bom e banal, eu finjo que é minha pele de poetisa roçando naquela barba rala e rock n’ roll. E se eu uso bem dos meus desejos, eu posso ouvir ele sussurrar que, sim, tá tudo bem morena… Um dia desses vou contar pra ele, sabe. Pra ele ver esse retrato que talvez ninguém nunca pintou igual. Aí meu coração vai chorar por estar sozinho, mas feliz pela brasa quentinha que ele acende quando sorri. Eu vou sorrir chorando, porque ele não é do meu mundo. Vou sentir a inveja conversar revoltada com meu amor turista: ele é a exposição.
Me fitava tão calado, intrigado, numa´fúria e indignação retida que faltava perder o ar.
— E acabou?
— Pra ti? Faz tempo. Pra mim é só o começo. Vitória D. (amores-cruzados)

Uma estante abarrotada de histórias, e no interior de cada uma delas, pequenos fragmentos, imagens e trechos, de um passado tão recente que nunca passa. - O que é o passado, senão, quando inserido num corpo anteriormente amado, algo que se foge do controle das mãos e do pensamento? E quando amamos, talvez, não exista passado que nos deixe de revirar as entranhas. Talvez essa história de nostalgia signifique algo verdadeiramente eterno. - Eu passava os dedos entre as margens das páginas amareladas e firmes, com um prazer tão grande quanto minha saudade. Não entrava muita luz no recinto, e ao cair do crepúsculo meu único desejo era morrer de tristeza, escondida entre as memórias de altas estantes e extensas prateleiras. Talvez porque aquele céu rosa-alaranjado fosse bonito demais para ser admirado por alguém solitário. Ele veio sorrateiro e incovenientemente casual, então, enquanto eu tratava com meus botões do meu lento e natural renascimento das cinzas.

— Está escrito em seus olhos.

Um sorriso maroto que puxava uma cadeira acolchoada a cor de vinho, para acomodar-se à o que me parecia uma longa e tortuosa prosa. Nada naquele sorriso me inspirava prazer. O medo da tentação me arrepiava os pêlos da nuca.

— Seja lá o que for, sempre esteve. Dê a deixa de teu falar com algo menos óbvio.

— E quem foi que te ensinou à cuspir fogo pelas ventas? São esses livros? T e enfiei na fantasia dessa biblioteca escura, e tu me cria uma dentro de tua alma.

Pretensioso. Me olhava num tom de desafio que me trincava os ossos.

— Tu não sabes de mim, guri. Não mais.

— Ah, mineira, menina… minha. Shhhh…. Antes que me atire pedras. Como andas? Com as pernas, pois bem. E o coração? A gente fechava os olhos e dava as mãos, lá pras quatro e meia. E esperava passar. Acho que tu contava os calos dos meus dedos e apertava bem as pálpebras, só pra não ver nem sentir o sol caindo. E eu nem ligava…

À essa altura já caminhava entre os móveis como um gato, presunçoso, metido.

— Tu nem ligava. Nunca.

— Mas… Tá chovendo?

Parou num baque, apoiado nos calcanhares, como se prendesse a respiração àquela resposta.

— Daquelas garoinhas chatas, só. Depois de um tempo vira parte do contexto.

— E quem foi que abriu o guarda-chuva?

Teu semblante brilhava em cólera, explodia nervosismo daqueles olhos tão pretos. Às vezes a gente deve deixar de lágrimas. Elas voltam por nossa garganta feito uma cachoeira de tristeza. A garoa. Há de passar? Vomitei as palavras. E quem limpasse o assoalho que tratasse de carregá-las.

— Às vezes ele é tão bom, que dá medo de amar. Porque quando eu amo, aperto tanto contra meu peito (pra ver se entra) que quebra. Sangra por dentro e destruo por fora. E ele fica tão bonito livre. Ele combina com terças-feiras de Sol, sabe? É como se tivesse nascido para ser minha fênix, e à cada vez que eu me tornasse cinzas da minha própria ansiedade e angústia, ele me renascesse. É intrigante, mesmo que seja a verdade em pessoa. É que às vezes ele me cuida e foge como se fosse anjo da guarda de meio mundo. Eu vivo ainda nessa mania de ser excepcional, mágica, fada, encantadora. Então ele me abraça sem nem ver, e tenho medo que ele corra. Corra para nunca mais me chamar de ”meu bem”. Tô me contentando sem falar de amor. Porque a saudade faz dele ainda mais bonito em meus sonhos. Porque a gente se fala pequeno, apertado, e eu sei que ele pode expandir do tamanho do universo. A aura dele é azul, e talvez eu não esteja preparada para viver sem isso novamente. Às vezes ele parece a bossa nova que eu semre procurei. Mas talvez ele me venha com um solo de guitarra, sem rosa nem espatódea. Ele me encanta, ele me envolve, sabia? Ele é a coisa mais bonita do mundo. Mas sai dessa. Não é pra mim, quem dera. Eu deixo ele quietinho, olho de longe, se não eu estrago, quebro, desmonto. Às vezes (guarda esse segredo?), quando ele dorme, eu toco o rosto dele bem leve, com as costas das mãos. E enquanto ele pensa que foi um sonho bom e banal, eu finjo que é minha pele de poetisa roçando naquela barba rala e rock n’ roll. E se eu uso bem dos meus desejos, eu posso ouvir ele sussurrar que, sim, tá tudo bem morena… Um dia desses vou contar pra ele, sabe. Pra ele ver esse retrato que talvez ninguém nunca pintou igual. Aí meu coração vai chorar por estar sozinho, mas feliz pela brasa quentinha que ele acende quando sorri. Eu vou sorrir chorando, porque ele não é do meu mundo. Vou sentir a inveja conversar revoltada com meu amor turista: ele é a exposição.

Me fitava tão calado, intrigado, numa´fúria e indignação retida que faltava perder o ar.

— E acabou?

— Pra ti? Faz tempo. Pra mim é só o começo. Vitória D. (amores-cruzados)



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originally artitud via artitud


To afim de reblogar textos, alguém ? 



Posted 3 months ago with 1 note · reblog this


bom ja que eu e a Paulete cansamos de postar gifs e imagens, vamos parar devez, talvez eu sozinha irei reblogar textos anonimos e etc.